Penso no que és... e penso no que foste, também. E penso que o intervalo entre os teus dois tus se tornou um vácuo e que o teu velho tu se desvaneceu e se perdeu na memória que apenas consigo ter tua hoje. Penso em ti e vejo-te deitada, com olhos tristes e o peso do mundo nos ombros. Confusa com tudo o que se passa à tua volta, sem certezas se já aconteceu, de quem entrou, de quem saiu, de quantas vezes te mandaram comer ou levantar. Penso em ti e vejo-te deitada, destapada, com a carne reduzida aos ossos que te vejo agora salientes na bacia, nos ombros... reduzida a metade, fisicamente e psicologicamente porque não te deixa ser mais. Levantas-te e vejo a contradição na tua cara, o desejo de te deixares cair, de ficares e esperares que não doa mais, que te deixem descansar e do outro lado vejo-te lutares para não te resignares. Mesmo que por dentro já o tenhas feito. Não o queres mostrar a quem criaste e dói-me. Dói-me porque sinto o quanto te custa não desistir e ao mesmo tempo o quanto queres a tua vida. O quanto queres que a vida te ame de volta. Mas eu amo-te. E não to consigo dizer porque me aniquila chegar mais perto. Porque se eu chegar mais perto, eu vou cair e não me vou levantar mais. Às vezes tenho medo que não saibas, mas és minha mãe e eu sei que o teu coração guardou tudo. Guardou as nossas gargalhadas de volta a casa ao final do dia, as conversas humilhantes que tu me fazias ter e que agora me deixam tanta saudade, as discussões que tu não sabes mas que me apagam por não as poder reverter. Eu guardei as tuas lágrimas quando me viste perdida e o amor que escorria delas, de me tentares salvar quando eu não tinha mais nenhuma mão a que me agarrar. E agora eu, que sinto que quando mais precisas de mim não te consigo sequer fazer sorrir.
Penso em ti... no que foste e já não consegues mais soltar. No teu feitio explosivo e sensível, que tanto se assemelha ao meu. Que rebentava e afetava todos à volta, mas sempre mais a ti própria. No teu riso que ribombava nas paredes e que tocava os outros. Nas piadas inadequadas que quem te conhecia se habituava. No teu à vontade que às vezes me envergonhava e que agora só queria ter de volta... que contrasta com as tuas meias palavras, meios sons que mal oiço sairem-te da boca.
E penso em mim... e no futuro. E no medo que tenho que me deixes no vazio. No medo que tenho que deixes o meu irmão, a minha irmã, o Carlos e a avó. Tenho medo de acordar e tu não acordares mais... de não me ensinares a gerir o meu dinheiro ou de não conheceres a minha filha ou de veres a casa em que vou viver. Tenho medo do dia em que o peso que carregas agora passe para os meus ombros e de ter de o carregar até ao fim da minha vida. Imagino-a meia preenchida, comigo a desejar que estivesses lá quando atingisse algum sonho. No que serei eu depois de me ser arrancada parte de mim. Serei eternamente metade, ressentida com tudo o que não foi feito.

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