Desabafos.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Cancro III

Todos os dias, sinto angústia e sinto medo. Todos os dias me apercebo como se fosse a primeira vez: de como as oportunidades me foram roubadas, de como tão violentamente te tiram aos poucos dos meus braços. Do quão injusto é que sejas tu. Que sejamos nós a ter de sentir isto. Sinto-me fraca e incapaz, torturada e reduzida a pó; pisada pelas circunstâncias, gozada pela vida que troça de mim que não te posso salvar. Sinto a noite preencher-me, a necessidade de gritar aos deuses que te deixem ficar, de te soprar vida por eles que se recusam, de te proteger e rugir, inútil, a qualquer mal que se aproxime para te levar. Quero magoar o destino, as forças invisíveis que se alimentam de ti. Quero vingar-me dos céus por terem decidido reduzir o teu tempo, sem me consultarem. Quero aniquilar o inferno onde te puseram e trazer-te às costas para aquele tempo onde apesar das tristezas, viviamos felizes. 
Agora, as noites são só minhas e nem o sono me deixa sonhar. Visitas-me enquanto durmo e iludes-me quando te apresentas forte e saudável. Alicias o meu inconsciente, que acredita ingenuamente que algo maravilhoso te curou. E quando já não custa respirar e o coração se rendeu, a tua face distorce-se, o teu olhar escurece, as tuas pernas murcham e tu cais-me ao chão em lágrimas. 
Quando me apercebo, já o dia virou noite, já o tempo congelou, as flores morreram e a terra sugou-me. Abro os olhos e sinto angústia e sinto medo. Todos os dias. Agora sou dúvida, sou assombro, sou o sal das minhas e das tuas lágrimas. Sou corpo. Sou a espera. A responsabilidade de espelhar a grandiosidade que és.


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