Desabafos.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Mãe

   Espero que tenhas encontrado um recanto onde te sintas em casa, no luxo de um hotel onde não tenhas de fazer absolutamente nada se não te apetecer, porque eu sei que estavas farta de cozinhar e limpar a casa para três mandriões como nós. E sei que também gostavas de ter um belo de um assento onde te pudesses sentar e ver o que é que nós andamos a fazer, o que pensamos, que parvoíces é que fazemos na tua ausência. Eu bem que te imagino empanturrada com uma mariscada, enquanto te divertes a observar as nossas figuras; aquelas mais privadas e espalhafatosas que confiamos apenas a nós próprios.
   Espero que nesse recanto onde a tua alma escolheu viver, ainda consigas sentir o quanto eu te amo e a intensidade daquilo que te deu alegria enquanto aqui andavas. Espero que agora sintas apenas êxtase, como quando olhavas para o Carlos e sabias que não haveria mais ninguém que pudesses escolher para passar o resto dos teus dias. Espero que a tua alma sorria como quando te apanhava a rir às gargalhadas com ele, e sabia que o brilho nos teus olhos não era momentâneo, mas eterno, e que a raíz desse brilho era uma consequência de estares a viver um dos amores que mais te marcaram. Espero que a energia que te cerca agora seja tão vibrante como o êxtase que sentiste em cada um dos momentos em que soubeste que a vida era bela e que tinhas tudo… mesmo não tendo tudo o que sonhaste ter. 
   Sinto que me acompanhas para onde quer que eu vá e sinto-te a vibrares comigo de forma eufórica quando eu estou feliz e sinto, também, que sorris com a doçura própria da palavra “mãe”, quando a vida me embala. Não sinto mais que me possas julgar quando erro, sinto antes que me olhas com ternura e compreensão sabendo que tudo o que eu quero vir a ser, eu posso ser.
   O tempo mudou para mim. Não tenho dias contados para te voltar a ver. Sei disso porque ele provou-me que para o sítio para onde foste, não vos dão um bilhete de volta. Mas não te preocupes, porque mostrou-mo com a paciência e a sabedoria que lhe são características, para que eu não me encolhesse de medo. Sinto a tua falta. Mais do que ontem. E mais amanhã. 
   Queria um momento apenas para recordar tudo aquilo que fomos juntas. Queria um momento para te abraçar como nunca abracei. Queria contar-te como foi tudo para mim; como senti a força da revelação pesar-me nas costas, quando soube que nunca mais te iria ver. E queria aproveitar para te perguntar como foi para ti, se a morte chegou generosa, se te acolheu nos seus braços como se fosses sua filha, se te lembraste de mim e de nós. Queria saber como foi a dor que sentiste e que eu nunca pude sentir igual, o que pensavas quando vias que a esperança te fugia e que nunca me contaste. Quero saber o quão assustador foi para ti no momento em que soubeste, porque o sentiste, que não irias conseguir. Quero saber o que sentias quando estavas lúcida e olhavas para mim e para a Jéssica e para o Diogo e sabias que não nos ias poder ver crescer. Amo-te tanto e agradeço-te tanto. Gostava que ainda estivesses aqui. E não te falo mais, porque lembrar-me de ti faz-me feliz, mas lembrar-me da tua partida faz a minha alma gritar de dor. 



1 comentário:

  1. Obrigada pelas palavras e peço desculpa por só ter respondido hoje (tão tarde). **
    Abraço!

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« todos diferentes, todos iguais »