Desabafos.

sábado, 9 de novembro de 2019

Preto e branco

   Sem saber o que foi, sei que algo se perdeu. Talvez tenha sido aquela felicidade infantil, que se foi acanhando à medida que as desilusões se tornaram minhas amigas. Ou talvez tenha sido o mundo dos sonhos que desabou e encheu de destroços o olhar que outrora o fitava em cada conversa e gargalhada. Ou a minha energia que voou, desesperada e com medo que eu a desperdiçasse em tristezas, lágrimas e nos funerais que faço sozinha nos recantos da minha imaginação? No seu lugar, deixou-me a apatia, como quem deixa um bilhete, para que me fosse consolando até lhe apetecer voltar.
   A vida é um emaranhado de discórdias e enigmas, é uma montanha russa sem fim à vista, é a ânsia de querer o que não se percebe e achar, na nossa ingenuidade, que se entende tudo logicamente. Esta vida que me deram e que eu tentei, muitas vezes, agarrar, tanto me encheu de vácuo como me soprou milagres. E eu sou um paradigma. Eu sou o existir demais e deixar de existir por não me preencher. Eu sou fantasias e sonhos, sou voar alto e planar até começar a cair a pique. Eu sou a espiral da montanha russa e a cascata no final do riacho. Sou uma bomba de emoções, lágrimas e amores; depois, um pedaço de vidro embaçado e poeirento, rachado, fusco, marcado. Eu sou o tudo e o nada. Sou o ter a vida na mão e não conseguir agarrá-la, e de não a conseguir agarrar, deitá-la fora. Sou uma complexa, extensa, confusa, emaranhada rede de pensamentos que se contradizem e anulam e somam e questionam. Eu sou o conhecer e não saber fazer. Eu sou o amor mal compreendido, o amor mal desejado - por mim, por ti, por ele. Talvez seja a razão ou o engano. A emoção e a intuição. Ou a imaginação, a esperança de esperar que seja de volta. Eu sou o medo de falar. Sou o tempo de cativar. Sou a necessidade de ser semeada. Sou silêncio partilhado entre mim e ti, e sou também gargalhadas e intimidade. Sou quieta e embirrenta, na frustração de querer ter o mundo à minha medida. Sou fumo, sou álcool, sou céu e abismo. Sou a quem tu abres a porta para que te remodele a casa,  te mude o móvel velho do sítio, venda o tapete rasgado, esfregue os dogmas e os valores. E tu choras pelo que de velho falta. E mandas-me embora. Com razão. Porque não me compete a mim... Ou talvez seja a minha função neste emaranhado de vivências: remodelar casas, limpar vistas...
   Eu sou o teu grande amor no meio da desgraça. E a simulada salvação num naufrágio. Sou o amor mais puro e o ódio amaldiçoado. Sou filha de Deus e do Diabo. Sou Ares e Atena num só.



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